Amarras

A cadeira já o esperava, virada da mesma maneira, preparada para receber aquele corpo que devagar vagueava pela casa de bússola cega e de olhos perdidos no que lá atrás a vida lhe tinha dado.

Abriu a gaveta, lá dentro estavam alguns momentos guardados…”Não Abras!”
-Não abras esse álbum de fotografias, não recordes esse passado. Fechas as portas, fecha a alma, fecha…
Para quê lembrar o que já passou, se já passou é porque não pode ser lembrado.
- Não lembres o brilho do Sol de outrora, não fales da Lua como era grande e branca de paz, não fales, não fales, fecha apenas os olhos e engana a memória.
-Não leias essas cartas, os venenos do passado, são pássaros mortos numa caçada de prazer infinito de cães e caçadores sedentos de sangue.

Olha em redor, olha para o quarto que agora habitas e que já foi rodeado de grades e de noites de angústia e de vazio sempre eminente…olha agora e vê como o presente te oferece a mais bela das pazes….

Não podes acreditar naquilo que não vês e que não lembras, as tempestades do tempo que agora jazem num livro de rascunhos diversos onde as palavras te adormecem a língua.

Não menciones os meses de Inverno, e a Primavera que floresceu de bolbos podres e ervas daninhas que invadiram o teu jardim. Não recordes a fruta que comeste a horas tardias e que comias para engolir a tristeza que te invadia, comias como se quisesses devorar esse bicho que te corroía, mas logo vomitavas o embuste dos dias perdidos e da esperança morta junto à colcha da cama.

Na sombra das giestas, frágil é o coração, que olha a falésia e se retém perante a escalada, mas sobe, sobe até que o raio das estrelas te toque e o teu corpo se unifique por inteiro e alma regresse e se deite contigo. Por isso não lembres e não abras essa caixa, deixa-a a repousar na cave de fel, ou escondida atrás do sofá da sala.

Não sei mais desta história levada pelos ventos da memória, apenas laivos que insistem na sua presença.

Olha pela janela e contempla o entardecer que te oferece essa cor nova do Universo, não esperes o sinal do lamento, e deixa que a vaga de espuma dos novos sonhos de maresia te invadam para que, o sorriso tenha o alimento que te permite ainda sorrir.

Por isso, não lembres, não fales, não contes….VIVE!

1 comentários:

Vespinha disse...

Pois é amigo...a vida é um "Cai,levanta.Cai,levanta. Cai,levanta!"
Mas quem cai mais vezes, mais força ganha para o próximo embate!

Sempre contigo!

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